terça-feira, 24 de julho de 2012

FUNÇÃO MATERNA E DEPRESSÃO INFANTIL

Vou escrever aqui um pouco de psicologia. O texto que irei compartilhar faz parte de um trabalho realizado na graduação. Foi uma pesquisa bibliográfica no qual fiz adaptações e grifos meus.

FUNÇÃO MATERNA E DEPRESSÃO INFANTIL

Adaptado por: Cleide Neves – Psicóloga – CRP: 40812

O estresse faz parte da vida e está intimamente relacionado às exigências internas e externas que enfrentamos para assimilar as mudanças. Mas ele se torna negativo quando a adaptação ou os mecanismos de enfrentamento fracassam. Além disso nem todas as pessoas reagem da mesma forma aos fatores que provocam o estresse ou conduzem a ele. A situação se torna mais crítica quando o estresse está relacionado às mulheres grávidas, isso porque ele não irá afetar apenas a mãe. O feto, mesmo  protegido no interior do útero, não está alheio ao que acontece com a mulher que o gera.
Vários estudos já comprovaram que transtornos emocionais em grávidas aumentam a produção dos hormônios do estresse, particularmente o cortisol e a norepinefrina. Estes, por sua vez, exercem forte impacto na regulação dos genes, que podem ocasionar a destruição excessiva de neurônios e sinapses, alterando com isso a organização e a fisiologia do cérebro do bebê e prejudicando a futura capacidade da criança para lidar com o estresse. O estresse psicológico em mães grávidas, como transtorno de ansiedade ou depressão, também produzem alterações duradoras e indesejáveis na criança durante a gravidez. Eles dificultam o estabelecimento de vínculos primordias na díade mãe-bebê, definido por Winnicott, como “preocupação materna primária”, sendo essa um estado de sensibilidade aumentada, onde a mãe é capaz de se preocupar com seu bebê, sentindo sua real necessidade e anseios. É colocar-se no lugar do filho ou identificar-se com ele. É ser neste momento uma mãe suficientemente boa para o desenvolvimento saudável do seu bebê.
A mãe precisa sobreviver aos ataques de cólera (sentimento de raiva) de seu bebê, à sua indiferença, à sua recusa ou extrema voracidade de se alimentar, à falta de sono que ele lhe impõe; em  suma, precisa renunciar aos seus próprios interesses para poder cuidar de seu bebê. É um sentimento que nasce desde o desejo primário em ser mãe.
Segundo Frizzo e Piccinini (2005), o  puerpério,  assim como outras fases do ciclo vital, é um período propenso a crises por causa das mudanças físicas e psicológicas que o acompanham. A nova mãe precisa mudar o centro de sua identidade de filha para mãe, e até por vezes de profissional para mãe de família. Tal reorganização seria importante para ela poder alterar seus investimentos emocionais, sua distribuição de tempo, energia e suas atividades. Diante disso, o estado de equilíbrio emocional da mãe é fundamental durante a gestação e após o nascimento.
A mãe, que está afetivamente ou emocionalmente delibitada, terá dificuldades em desenvolver essa capacidade de sentir as necessidades e demanda de amor de seu filho. E Freud, desde os Três ensaios sobre a sexualidade (1905), e durante toda sua obra, falava de uma situação que é vivida  repetidas vezes, desde que o lactente começa a reconhecer a diferença entre sua mãe e os outros adultos. Se a criança se encontra em um momento de desamparo, demanda de amor ou precisando de algo que não pode conseguir sozinha, desde alimento e até um pouco de aconchego e carinho, sem que haja alguém para falar com ela a fim de dissipar a escuridão do quarto, então a ausência materna transforma-se em sentimento de abandono e desamparo. Em outras palavras, a mãe que não consegue desenvolver essa maternagem irá negligenciar os cuidados aos seu filho, colocando-o no estado desamparo emocional no momento em que ele está no estado de dependência absoluta de amor, proteção e cuidado.
O que poderá acontecer com essa criança? Indicativos de ansiedade patológica em relação à perda do objeto amado, a mãe, e que poderá acarretar futuramente em um indíviduo inseguro, dependente de amor, triste e desamparado. E o que se pode confirmar também, é que a própria criança se vê como responsável de tal abandono e causadora da terrível desgraça. É uma mistura de dor, raiva, saudade e culpa, sintomas estes que são indícios de uma depressão.
A função materna, somada a outras condições ambientais favoráveis, é essencial para que o bebê possa desenvolver-se física e psiquicamente saudável. Nos primeiros meses de vida, a presença acolhedora da figura materna, propiciada de forma constante e nos momentos adequados, fornece ao bebê a ilusão de que a satisfação das suas necessidades ocorre por sua única e exclusiva vontade. Ele ainda não é capaz de se diferenciar do mundo externo, por essa razão, a presença da mãe é essencial para que gradativamente ela possa subjetivá-lo com confiança e em pequenas doses, ela possa mostrá-lo a realidade externa. Assim, ele poderá ver que é diferente da mãe para poder adquirir sua independência emocional. A desilusão, na medida certa, é que capacita o bebê a criar símbolos que farão a transição do mundo interno para o mundo externo, diferenciando-se assim, o eu do objeto mãe. Dessa forma, dá-se início à atividade mental do bebê , considerando-se que simbolizar é a capacidade de criar substitutos para os objetos, nesse caso a presença real da mãe. Um exemplo disso é que, quando a mãe precisa sair para trabalhar, a criança possa criar formas para brincar de forma saudável com outras pessoas que substituem a mãe, sabendo ela (criança) que a ausência é momentânea pois essa mãe que foi irá voltar para ela com certeza. É um vínculo de amor, onde mesmo estando longe estamos pertos. Este é um sentimento contrário ao sentimento de abandono e desamparo emocional.
É de suma importância que a criança tenha uma mãe continente com capacidade de venerá-lo,  para que ele possa gradativamente suportar a frustração da perda real em não tê-la sempre que precisar, adiar a gratificação e adquirir, assim, aos poucos, a capacidade de simbolizar e pensar de forma espontânea e criativa.

QUAIS OS SINTOMAS DA DEPRESSÃO INFANTIL?

Os sintomas da depressão infantil, se manifestam de diferentes maneiras e muitas vezes passam despercebidos pelos pais. Os sintomas mais freqüentes da depressão na infância, costumam ser os seguintes: insônia, choro, baixa concentração, fatiga, irritabilidade, rebeldia, tiques, lentidão psicomotora, anorexia, problemas de memória, perturbações no sono e/ou na alimentação, desesperança, retardo no desenvolvimento físico esperado para a idade, além da fisionomia triste, irritabilidade, alteração do apetite, hiperatividade, medo inespecíficos, ideações e tentativas de suicídio. A tristeza pode ou não estar presente.
O bebê afetivamente sensível pode ter dificuldades em relação ao apego, que é um impulso primário como parte de um processo de seleção natural, portanto, inato. Existem importantes diferenças individuais no estabelecimento das condutas de apego e na elaboração dos vínculos. O apego é uma resposta de busca de proteção necessária à sobrevivência da espécie. É o estado emocional do bebê com sua mãe ou cuidadora. É o sentimento de satisfação, de gozo e pele corada no momento da succção no seio materno, o prazer em ser alimentado. É o cheiro da mãe que sinaliza que está próxima, é a voz doce que acalenta o choro do bebê inseguro e a mão que afaga a pele sensível e erotizada. A criança saudável consegue sentir essa manifestação de carinho e se apega para sua própria sobrevivência. Porém, não significa que crianças que não conseguem manter esse contato externo com outro estejam necessariamente em estado depressivo, existem outros transtornos que podem ser sinalizados de acordo com esse comportamento, como por exemplo, o autismo. Mas que poderá somente ser diagnosticado através de uma avaliação minuciosa com equipe multiprofissionais.
            Quando a depressão é diagnosticada, alguns profissionais de saúde indicam tratamento terapêutico através da Ludoterapia. O tratamento com brinquedos foi desenvolvido pela psicanalista Melanie Klein (1980) com o objetivo de compreender e interpretar as fantasias, os sentimentos, as ansiedades e experiências expressas pela criança ao brincar. Com essa técnica, Melanie Klein (1980), conseguiu imediatamente obter resultados terapêuticos que ultrapassavam, geralmente, os obtidos com adultos. Para o  tratamento ser mais eficaz, o psicoterapeuta deve trabalhar não só a criança, mas também toda a família. Em alguns casos dificilmente é indicada alguma medicação.
            O tratamento psicofarmacológico da Depressão Infantil não é diferente daquele empregado nos adultos. Há uma tendência médica, tão cautelosa quanto desinformada, em recomendar subdosagens de Antidepressivos Tricíclicos para crianças e, com isso, proporcionar sucessivos fracassos terapêuticos. Antes de medicalizar, o profissional deverá ter a consciência de que esse procedimento é, em última instância, necessário para a evolução do quadro. Mas, na minha opinião, estados depressivos quando não diagnosticados como um fator orgânico, mas sim constatado devido a falta de vínculos e convivência em ambientes desfavoráveis, tais como: a própria família, escola ou grupos sociais, deve-se ser tratado estritamente através da psicoterapia familiar e caso necessário, individual.

Para uma leitura mais profunda sobre o assunto, abaixo seguem as referências bibliográficas pelo qual fundamentei o texto.

Referências Bibliográficas:
KLEIN, Melanie . HEIMANN, Paula & R.E. Money- Kyrle –( Organizadores )
Tradução: Álvaro Cabral - Novas Tendências na Psicanálise- Rio de Janeiro – RJ-1980
Editora Guanabara Koogan – 2º Edição

VERNY, Thomas - Revista Mente & Cérebro ( 2007 ). A Mente do Bebê. Constituição Psíquica e Universo Simbólico. São Paulo – SP - 2º Edição . Editorial Duetto
Série Especial da Revista Mente & Cérebro

FREUD, S. (1905). Três Ensaios sobre a teoria da sexualidade. Trad. Sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro, Imago, 1969. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v.VII.]

FRIZZO & PICCININI - Interação mãe-bebê em Contexto de Depressão Materna:
Aspectos Teóricos e Empíricos – Psicologia em Estudo, Maringá, v. 10, n. 1, p. 47-55, jan./abr. 2005.

6 comentários:

  1. Muito interessante!!! Sei que vou aprender muito mais através do seu blog, como você mesmo sabe, eu sou uma mãe muito presente e entender o que se passa com meus filhos é de suma importância para mim. Já até te alugo por ter privilégio de ser irmã de uma psicóloga. Sucesso por mais esse canal que você encontrou de compartilhar dos seus ensinamentos dessa bela profissão.
    Sua irmã Klécia.

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  2. Obrigada! Aceito dicas para os próximos posts. Minha intenção é ajudar e passar informação da melhor forma possível. Bjss.

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  3. Adorei o seu texto, o seu blog esta sendo uma ótima forma de repassar o seu conhecimento e enriquecer nossas idéias!!!! Parabéns!
    Bjsss

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    1. Obrigada Celi, espero compartilhar muito mais essas informações para o maior número de pessoas possíveis. Bjs.

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  4. Gostei muito do seu blog,sua matéria foi muito bem elaborada.Até mesmo fez eu repensar sobre aquele fato de medicação controlada pra criança. Acho que a base de tudo está no começo, uma gravidez problemática tem maior chances de prejudicar sim o comportamento de uma criança.Sou mãe de 4, como vc sabe rsrsrs e cada gravidez foi de um jeito.
    Desejo que vc tenha bastante sucesso no seu blog Doutora Cleide, me orgulho muito de ser sua prima e precisando, pode contar comigo. Um grande beijo PRIMA!

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    1. Prima você é um estudo em pessoa, mãe de quatro filhos tem muito o que falar em relação ao desenvolvimento de cada um. A melhor forma de aprender é observando com a experiência. Bjão e obrigada!

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